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O lugar da disponibilidade

21.03.2018 , Belo Horizonte/MG

Bem gostaria de registrar neste canal, um pouco da minha experiência nos serviços substitutivos de Belo Horizonte. Para quem não conhece esses serviços surgiram a partir da Reforma Psiquiátrica que veio questionar a lógica médica de compreensão da loucura como doença, se revelando como uma nova prática de assistência e um novo olhar sobre a loucura, que deve ser entendida não mais como um fator de exclusão ou doença, mas como uma construção social de grande impacto na vida da pessoa com sofrimento mental. Esse novo modelo desbancou não só um sistema de reclusão e exploração por parte da indústria da psiquiatria, como abriu espaço para a Psicologia e outras profissões que passaram a ocupar um lugar que até então só era admitido para a medicina. Essa conquista proporcionou a inserção da multidisciplinaridade e uma interlocução com a rede na tentativa de compreensão dos casos mais desafiadores que surgem no sistema único de saúde. Durante muitos anos a lógica da reclusão sustentava grandes manicômios, que aprisionava todos aqueles que se opunham ao sistema vigente. A estratégia era conter subjetividades de todos os transgressores do modelo tradicional. Há registros de que mais 80% das pessoas que foram encaminhadas aos grandes hospitais psiquiátricos eram "transgressores da moral" e não possuem nenhum transtorno mental. Segundo o autor Michel Foucault faziam parte deste grupo de excluídos, as moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento, homossexuais, ociosos e "pervertidos". A Reforma Psiquiátrica por sua vez, surge na superação deste antigo paradigma. Busca se estabelecer como uma prática mais humanizada e comprometida com a singularidade. Apesar disso, o movimento reformista ainda busca se consolidar, e paralelamente luta contra os movimentos de oposição. Desta forma, devemos estar atentos a nossa prática, para que não venhamos retroceder quanto ao que já alcançamos.Atuei durantes três anos em diferentes serviços: Centro de convivência, Centros de atenção Psicossocial infanto juvenil, adulto e de álcool e outra drogas. Sobre esta experiência nos serviços de "porta aberta" posso dizer que conquistei um acesso ao sujeito da clínica, que agora deixa os muros do consultório para dar lugar a escuta em um espaço de convivência, socialização e produção de algo muito particular que os identifica e os caracteriza. Esse sujeito que autor do próprio processo de "cura" e que revela-se como um ser em potencial.Observar o funcionamento dos serviços substitutivos e sua importância na vida dos usuários, o manejo dos monitores e demais funcionários me permitem ver o trabalho como arte. Um desafio que resulta em um novo olhar sobre a "lou-cura". Percebi que os ditos "loucos" têm um potencial criativo incrível, e que nós somos observadores desse novo modo de enxergar o mundo. Não temos acesso a senão parte dessa nova realidade através do olhar, da empatia e da identificação, que por breve momento nos faz ver o mundo através da janela desse olhar do outro, da forma como da cor e significado a própria vida.Sinto-me privilegiada por caminhar ao lado dos profissionais e por encontrar na disponibilidade o meu lugar.


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